Game of Thrones: Por Que Westeros Mudou a Fantasia e Conquistou uma Geração

Game of Thrones: Por Que Westeros Mudou a Fantasia e Conquistou uma Geração

Existem mundos de fantasia nos quais eu gostaria de viver. Lugares que despertam aquela vontade quase infantil de atravessar uma porta e descobrir que, do outro lado, existe magia.

Westeros definitivamente não é um deles.

Eu adoraria conhecer seus castelos. Gostaria de observar a Muralha de perto, caminhar pelas ruas de Porto Real, visitar Winterfell e, admito, ver um dragão cruzando o céu seria algo difícil de recusar.

Mas morar ali?

Provavelmente não sobreviveria uma semana.

E talvez seja justamente essa uma das coisas que mais me fascinam em Game of Thrones.

George R. R. Martin criou um universo fantástico no qual a pergunta mais importante raramente é “quem é o herói?”. Muitas vezes, a pergunta é simplesmente:

“O que essa pessoa está disposta a fazer para sobreviver?”

Quando conheci Westeros, imaginei que encontraria uma história sobre reis, espadas, criaturas sobrenaturais e disputas por um trono.

Tudo isso estava lá.

Mas descobri algo muito mais interessante.

Encontrei famílias tentando sobreviver ao peso dos próprios sobrenomes. Pessoas divididas entre amor e dever. Homens honrados cometendo erros. Pessoas desprezíveis demonstrando inesperadamente alguma humanidade. Reis incapazes de governar e indivíduos sem qualquer título demonstrando uma enorme capacidade de liderança.

Os dragões são espetaculares.

As batalhas impressionam.

As mortes inesperadas certamente ajudaram a construir a fama da série.

Mas, para mim, o verdadeiro espetáculo de Game of Thrones sempre foram as pessoas.

Game of Thrones começou muito antes da HBO

Existe uma distinção importante para quem conheceu esse universo através da televisão.

Game of Thrones é o nome da série da HBO, mas também corresponde ao título original do primeiro romance de As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire), saga literária criada por George R. R. Martin.

O primeiro livro, A Game of Thrones, foi publicado em 1996.

Portanto, Westeros já existia na literatura muito antes de milhões de espectadores ouvirem aquela inesquecível sequência musical de abertura na televisão.

E os livros possuem uma característica que considero fundamental para compreender Martin como escritor: a história é contada através de diferentes pontos de vista.

Não existe um narrador onisciente simplesmente explicando quem está certo.

Acompanhamos personagens.

E personagens possuem preconceitos, medos, informações incompletas e interesses próprios.

Isso significa que duas pessoas podem interpretar o mesmo acontecimento de maneiras completamente diferentes.

Quanto mais mergulho nesse universo, mais gosto dessa característica.

Porque nós, leitores, também podemos estar errados.

George R. R. Martin construiu um mundo onde ninguém conhece toda a verdade

Uma das maiores forças de Martin como escritor está justamente nessa limitação.

Cada personagem conhece apenas uma pequena parte do tabuleiro.

Um rei pode acreditar que controla seu reino.

Um comandante pode acreditar que compreende seus inimigos.

Uma família pode acreditar que conhece seus aliados.

Nós, leitores, frequentemente acreditamos que entendemos tudo.

Então surge uma informação nova.

E o tabuleiro muda.

Isso cria uma sensação extraordinária de instabilidade.

Ninguém controla completamente o jogo.

E talvez seja por isso que o título Game of Thrones seja tão perfeito.

O trono pode parecer o objetivo principal, mas as pessoas que disputam poder frequentemente não percebem ameaças muito maiores crescendo além de seu campo de visão.

Westeros não é apenas um cenário

Esse é outro aspecto que me impressiona profundamente.

Westeros possui geografia, religiões, genealogias, conflitos históricos, culturas regionais e rivalidades anteriores aos personagens que acompanhamos.

Quando alguém menciona uma guerra antiga, aquele acontecimento frequentemente possui participantes, causas e consequências.

Quando encontramos uma Casa nobre, existe uma história familiar.

Quando vemos um castelo, normalmente existe um motivo político para ele estar localizado ali.

Martin construiu Westeros para funcionar como uma sociedade.

E isso faz uma enorme diferença.

Não sentimos que os personagens estão caminhando por um cenário montado para eles.

Sentimos que nasceram dentro de instituições que existiam antes deles.

Tolkien e Martin não precisam disputar o mesmo trono

Sempre achei curiosa a necessidade de colocar Martin e J. R. R. Tolkien em lados opostos.

“Quem é melhor?”

“Tolkien ou Martin?”

Para mim, essa comparação se torna muito mais interessante quando abandonamos a competição.

Tolkien e Martin trabalham com tradições, épocas e sensibilidades diferentes.

A Terra-média possui forte dimensão mitológica. Muitas vezes sentimos que estamos testemunhando os últimos ecos de acontecimentos gigantescos de eras anteriores.

Westeros possui uma textura mais explicitamente política e dinástica.

Martin se interessa profundamente por aquilo que acontece depois que alguém conquista o poder.

Derrotar um inimigo é uma coisa.

Governar milhares de pessoas é outra completamente diferente.

Como arrecadar impostos?

Como alimentar uma cidade?

Como manter alianças?

O que fazer quando dois aliados querem coisas incompatíveis?

Quem sucede um rei?

Uma vitória militar resolve um conflito ou cria cinco novos?

Essas perguntas fazem Westeros parecer perigosamente humano.

As Casas são muito mais do que brasões bonitos

Stark.

Lannister.

Targaryen.

Baratheon.

Greyjoy.

Tyrell.

Martell.

Mesmo alguém que nunca leu os livros provavelmente reconhece alguns desses nomes.

Isso acontece porque Martin conseguiu transformar famílias fictícias em instituições culturais.

Cada grande Casa possui território, símbolos, reputação, história, aliados, inimigos e uma identidade construída durante gerações.

Os Stark estão associados ao Norte e a uma determinada visão de dever e tradição.

Os Lannister carregam riqueza, prestígio e uma relação profundamente complexa com poder e legado.

Os Targaryen carregam consigo memória, conquista, queda e uma relação quase mítica com dragões.

Mas o mais interessante é que nenhum personagem precisa necessariamente corresponder ao estereótipo de sua família.

E aí surge o conflito.

Quanto do que somos pertence realmente a nós e quanto herdamos do nome que carregamos?

Para mim, essa pergunta atravessa grande parte de Game of Thrones.

O Trono de Ferro é um símbolo perfeito

Poucos objetos fictícios se tornaram tão reconhecíveis na cultura geek quanto o Trono de Ferro.

Mas gosto dele principalmente pelo que representa.

É desconfortável.

Ameaçador.

Construído para comunicar poder.

E todos querem possuí-lo.

Existe uma ironia maravilhosa nisso.

Pessoas sacrificam famílias, alianças, princípios e milhares de vidas pela possibilidade de se sentarem em algo que parece incapaz de oferecer qualquer conforto.

O trono promete controle.

Mas quem chega perto dele descobre que governar significa lidar com consequências.

É quase como se Martin estivesse perguntando constantemente:

Você ainda desejaria o poder se soubesse quanto custa mantê-lo?

Enquanto todos olham para o trono, existe uma Muralha

Essa talvez seja uma das ideias narrativas que mais gosto em Westeros.

Enquanto nobres discutem sucessões, alianças e territórios, existe no extremo Norte uma construção gigantesca separando o reino de algo desconhecido.

A Muralha funciona quase como um lembrete.

As disputas humanas parecem enormes quando estamos dentro delas.

Mas talvez não sejam.

Existem ameaças que não se importam com sobrenomes.

Não perguntam qual Casa ocupa o trono.

Não respeitam fronteiras políticas.

Essa tensão entre política imediata e perigo existencial acompanha toda a identidade de As Crônicas de Gelo e Fogo.

E considero isso brilhante.

A magia entra pela porta dos fundos

Outro aspecto de que gosto muito é a maneira como o sobrenatural aparece.

Westeros não começa parecendo um parque temático de magia.

Grande parte de sua realidade é brutalmente concreta.

Casamentos.

Heranças.

Exércitos.

Dívidas.

Fome.

Território.

Política.

Então coisas estranhas começam a acontecer.

Histórias consideradas antigas talvez não sejam apenas histórias.

Dragões deixam de pertencer exclusivamente ao passado.

O impossível começa a ocupar espaço.

E isso faz a magia parecer realmente extraordinária.

Se todo mundo dispara magia constantemente, magia rapidamente se torna tecnologia com efeitos especiais.

Martin prefere permitir que o fantástico cresça lentamente.

Para mim, isso aumenta enormemente seu impacto.

Heróis e vilões ficam desconfortavelmente próximos

Talvez essa seja a característica mais famosa de Game of Thrones.

Personagens moralmente complexos.

Mas existe uma diferença entre complexidade e simplesmente fazer todo mundo ser cruel.

Martin não escreve um mundo interessante porque “todos são maus”.

Isso seria extremamente previsível.

O que torna Westeros fascinante é que pessoas podem ser contraditórias.

Alguém pode demonstrar coragem e egoísmo.

Amor e violência.

Lealdade e ambição.

Uma pessoa pode tomar uma decisão moralmente admirável e sofrer consequências terríveis.

Outra pode agir de maneira calculista e prosperar.

Isso incomoda porque estamos acostumados a narrativas nas quais comportamento moral e recompensa narrativa caminham juntos.

Westeros frequentemente recusa essa garantia.

Aqui, decisões realmente possuem consequências

Quando assisti a Game of Thrones, uma sensação começou a aparecer muito cedo:

“Essas pessoas não estão protegidas pela história.”

Não estou falando apenas de mortes.

A questão é maior.

Decisões permanecem.

Promessas importam.

Casamentos importam.

Ofensas são lembradas.

Dívidas políticas reaparecem.

Uma escolha aparentemente pequena pode produzir consequências muito depois.

Isso torna cada conversa potencialmente importante.

Em algumas séries, eu espero pela batalha.

Em Game of Thrones, frequentemente fico mais tenso quando duas pessoas simplesmente estão conversando em uma sala.

Porque palavras podem iniciar guerras.

Existe história real dentro de Westeros?

Sim, mas precisamos tomar cuidado.

Martin bebeu em muitas fontes históricas, e a Guerra das Rosas, conflito dinástico inglês do século XV, é frequentemente apontada como uma referência importante.

Existem paralelos tentadores.

Lancaster.

York.

Lannister.

Stark.

Mas transformar Westeros em uma espécie de criptograma histórico seria um erro.

Martin combina acontecimentos, personalidades e estruturas de períodos diferentes, modifica elementos e acrescenta sua própria imaginação.

Westeros não é Inglaterra medieval com dragões.

É um mundo fantástico que utiliza a história como matéria-prima.

Essa diferença importa.

E então Westeros chegou à televisão

Em 2011, a HBO estreou Game of Thrones.

O desafio era gigantesco.

Como adaptar uma história com dezenas de personagens, múltiplos núcleos, famílias, reinos, religiões, guerras e uma quantidade quase absurda de nomes?

A resposta inicial foi inteligente:

personagens primeiro.

A série precisava fazer o espectador compreender relações antes de compreender mapas.

Quem ama quem?

Quem odeia quem?

Quem deve alguma coisa a quem?

Quem deseja poder?

Quem possui legitimidade?

Quando essas relações ficam claras, o mundo começa a fazer sentido.

E então a escala cresce.

A HBO fez fantasia parecer televisão de prestígio

Hoje isso talvez pareça normal.

Mas precisamos lembrar o contexto.

Durante muito tempo, fantasia épica na televisão carregava limitações evidentes de orçamento e escala.

Game of Thrones ajudou a mudar essa percepção.

Castelos, figurinos, locações internacionais, batalhas, criaturas digitais e enormes sequências cinematográficas fizeram a série progressivamente se aproximar da escala de grandes produções de cinema.

Mas efeitos visuais não seriam suficientes.

A direção de arte precisava convencer.

Winterfell precisava parecer diferente de Porto Real.

O Norte precisava possuir uma identidade.

Essos precisava parecer outro continente.

Figurinos precisavam comunicar classe, região e poder antes mesmo de alguém abrir a boca.

Esse trabalho visual tornou Westeros compreensível.

E existe a música de Ramin Djawadi

Basta ouvir algumas notas do tema principal.

Eu poderia encerrar o parágrafo aqui.

Mas vale entender por que aquilo funciona.

Ramin Djawadi construiu uma linguagem musical baseada em temas associados a famílias, personagens e situações.

O violoncelo tornou-se particularmente importante para a identidade sonora da série. Djawadi contou que os produtores queriam evitar clichês musicais de fantasia, como certas flautas medievais, buscando algo que soasse mais contemporâneo.

E os temas evoluem.

A música acompanha transformações dos personagens e pode até combinar motivos diferentes conforme relações e histórias se cruzam. Djawadi descreveu esse processo como uma forma adicional de contar a história.

Para mim, isso é composição audiovisual no seu melhor.

A música não está simplesmente dizendo:

“Agora fique triste.”

Ela está lembrando quem essas pessoas são.

Game of Thrones virou um fenômeno cultural

Chegou um momento em que assistir à série parecia quase um evento coletivo.

Discussões explodiam depois dos episódios.

Teorias ocupavam fóruns e redes sociais.

Pessoas que nunca haviam lido fantasia discutiam sucessões dinásticas.

Brasões apareciam em camisetas.

Frases entravam no vocabulário popular.

A série acumulou dezenas de Emmys e se tornou uma das produções televisivas mais reconhecidas de sua época; já às vésperas da temporada final, a Recording Academy a descrevia como um fenômeno cultural e registrava 47 Primetime Emmys conquistados até então.

Mas seu impacto maior talvez tenha sido industrial.

Depois de Game of Thrones, ficou muito mais fácil imaginar grandes empresas investindo seriamente em fantasia televisiva de alto orçamento.

A fantasia havia demonstrado que podia ocupar o centro da conversa cultural.

Os livros e a série são experiências diferentes

Não gosto da pergunta:

“Qual é melhor?”

Prefiro perguntar:

“O que cada versão consegue fazer?”

Nos livros, entramos na cabeça dos personagens.

Conhecemos pensamentos, lembranças, justificativas e inseguranças.

E isso é crucial em uma narrativa baseada em perspectivas limitadas.

Na televisão, perdemos esse acesso direto.

Em compensação, ganhamos atuação.

Um olhar.

Uma pausa.

A maneira como alguém segura uma taça.

A distância física entre duas pessoas.

O silêncio depois de uma frase.

A adaptação precisou condensar personagens, reorganizar acontecimentos e eventualmente seguir caminhos próprios.

Isso não torna uma versão automaticamente superior.

Torna as duas experiências diferentes.

Precisamos falar sobre o final

Seria estranho escrever sobre o legado de Game of Thrones ignorando a enorme controvérsia em torno de sua temporada final.

Sem entrar em spoilers, acredito que parte da frustração surgiu de uma mudança perceptível no ritmo.

Uma história que havia dedicado temporadas inteiras ao desenvolvimento político e psicológico começou a resolver acontecimentos enormes em períodos muito menores.

Para alguns espectadores, determinadas decisões poderiam até fazer sentido como destino final de personagens.

O problema estava em como chegamos até elas.

Existe uma diferença enorme entre:

“Esse personagem jamais faria isso.”

e:

“Eu consigo imaginar esse personagem fazendo isso, mas precisava ter acompanhado melhor sua transformação.”

Para mim, boa parte da discussão está nesse espaço.

E os livros?

Aqui precisamos separar claramente televisão e literatura.

O final da HBO não equivale simplesmente ao final publicado de As Crônicas de Gelo e Fogo.

A adaptação eventualmente ultrapassou o material principal publicado e desenvolveu sua própria trajetória televisiva.

Portanto, não considero correto tratar cada decisão final da série como se fosse automaticamente a conclusão literária de Martin.

São obras relacionadas.

Não idênticas.

E essa distinção será particularmente importante para quem decidir conhecer Westeros pelos livros depois da televisão.

Game of Thrones continua vivo

O encerramento controverso poderia ter destruído o interesse por Westeros.

Não destruiu.

O universo continuou sendo discutido, relido e expandido em outras produções.

E isso diz alguma coisa importante.

Talvez nossa ligação nunca tenha sido exclusivamente com aquela série.

Era com Westeros.

Com suas famílias.

Sua história.

Seus mistérios.

Seus dragões.

Suas guerras antigas.

Suas perguntas ainda sem resposta.

Uma história pode terminar.

Um mundo bem construído continua oferecendo caminhos.

Por que ainda somos fascinados por Westeros?

Depois de tudo isso, volto à pergunta inicial.

O que Game of Thrones possui de tão especial?

Para mim, a resposta não está no número de batalhas.

Nem na violência.

Nem nas cenas chocantes.

E nem mesmo nos dragões.

Está no fato de Westeros funcionar como uma enorme máquina de colocar seres humanos diante de escolhas difíceis.

Honra ou sobrevivência?

Família ou dever?

Amor ou poder?

Vingança ou paz?

Tradição ou mudança?

E talvez a pergunta mais perigosa de todas:

O que você faria se acreditasse que o poder deveria pertencer a você?

É aí que Game of Thrones se torna muito maior do que uma história sobre um trono.

George R. R. Martin construiu um universo no qual fantasia e política não competem.

Elas se alimentam.

Dragões podem existir ao lado de crises sucessórias.

Magia pode coexistir com dívidas.

Profecias podem dividir espaço com casamentos políticos.

E o destino de um reino pode depender tanto de uma espada quanto de uma conversa realizada atrás de uma porta fechada.

Quando olho para a influência que Game of Thrones deixou na cultura geek, não vejo apenas uma série extremamente popular.

Vejo uma obra que ajudou a ampliar aquilo que milhões de espectadores imaginavam quando ouviam a palavra fantasia.

Westeros mostrou que o gênero podia ser grandioso sem abandonar intimidade.

Fantástico sem deixar de ser político.

Espetacular sem deixar de falar sobre fraquezas profundamente humanas.

E talvez seja justamente por isso que continuamos voltando.

Os dragões chamaram nossa atenção.

Mas foram os seres humanos de Westeros que fizeram aquele mundo permanecer conosco.

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